Relato de Caso: Neurofeedback e Transtorno de Pânico

“Tenho 40 anos de idade e há 15 anos convivo com sintomas e limitações por conta de um transtorno psiquiátrico chamado Síndrome do Pânico.  Com o tratamento farmacológico os sintomas foram controlados, porém comportamentos de esquiva e evitação sempre me acompanharam. Hoje estou no 6 semestre do curso de psicologia e um dia navegando pela internet tive meu primeiro contato com o neurofeedback. Me interessei e passei a estudar sobre a técnica. Como gostei muito da teoria, resolvi experimentá-la em minha própria patologia. Entrei em contato com a psicóloga July Silveira Gomes e marquei, a princípio, 10 sessões. Como senti muita melhora decidimos fazer mais 10.

Durante este período apareceu o grande teste: pintou uma viagem para a Inglaterra e eu me senti preparado a enfrentar o desafio, mesmo com o inglês limitado e sabendo que ficaria sozinho em Londres grande parte do tempo.

Por fim, enfrentei 10 horas de vôo, algo até então impensável para mim. A viagem foi maravilhosa, passei dez dias rodando pela Inglaterra e aqui estou escrevendo este depoimento pois fiquei encantado com os resultados que obtive com o neurofeedback.” (Paciente Anônimo)

Foi muito bacana ter recebido esse depoimento e perceber o quanto esse paciente estava animado em compartilhar os resultados obtidos com o treinamento aqui no blog.

O transtorno de pânico se enquadra na categoria dos transtornos de ansiedade (de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª. edição – DSM-5) e possui características bem específicas. A ocorrência de mais de um episódio de pânico é condição sine qua non (imprescindível) para o diagnóstico. Um “episódio de pânico” se refere a um “surto abrupto de medo ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos…” (DSM-5, 2014) com sintomas como palpitação, sudorese, sensação de asfixia, medo de morrer, dentre outros. Existem 13 sintomas que o médico psiquiatra usa como critério diagnóstico.[i]

Ao me procurar, esse paciente demonstrava comportamentos de preocupação e ansiedade com coisas cotidianas. A pressão no trabalho (ele tem um negócio próprio), na faculdade e o ritmo de vida o deixavam bastante “acelerado” e ansioso. Além disso, a preocupação com a re-ocorrência de uma nova crise de pânico o deixava em alerta o tempo inteiro. Ao iniciar o tratamento, ele tomava uma medicação para o pânico[ii] e, além disso, possuía um ansiolítico[iii] na bolsa para usar caso ocorresse uma crise. Afirmou que esse último funcionava como um “amuleto” do qual não conseguia se desvincular, mesmo fazendo mais de 6 meses que não tinha nenhuma crise.

Na avaliação de sintomas, realizada no primero encontro, ele destacou se preocupar excessivamente com as coisas em geral, ter pressa para completar tarefas, ter dificuldade em organizar prioridades, em lembrar séries de números e em sentar sem mover braços e pernas. Além disso, relatou sentir ansiedade e medo sem motivos aparentes para tal. O paciente já praticava Yoga há 2 anos como modo de gerenciar sua ansiedade.

O treinamento com neurofeedback foi realizado durante 20 sessões, durante os meses de julho e novembro de 2014. O protocolo de treinamento foi focado em reduzir ondas excessivamente lentas e excessivamente rápidas na região fronto-temporal e no aumento de ondas do ritmo beta na região frontal do hemisfério esquerdo e de ondas beta-lento na região sensório-motora do hemisfério direito. Além do treinamento do neurofeedback, associou-se o treinamento domiciliar com o biofeedback cardiovascular, com recomendação de uso diário.

Na 5ª. sessão (3a. semana de tratamento) o paciente relata que parou de andar com o ansiolítico na carteira. Afirmou estar sentindo-se muito bem, que sua confiança aumentara com a prática do biofeedback e que estava se sentindo preparado para lidar com as situações que antes evitava por serem (para ele) desencadeantes de ansiedade, como trânsito, ônibus e metrô.

A diminuição da dependência a recursos externos, assim como o aumento da capacidade de autogerenciamento fisiológico foram de vital importância para o sucesso da intervenção, propiciando a redução dos comportamentos de esquiva e aumento da confiança no enfrentamento das situações ansiogênicas, gerando um esquema de retroalimentação onde a cada conquista o paciente reforçava positivamente sua autoconfiança e, assim, foi se tornando mais resiliente contra possíveis recidivas do transtorno.

O gráfico abaixo exibe a intensidade dos principais sintomas percebidos pelo paciente ao início (linha azul), meio (linha laranja) e ao fim do tratamento.

sintomas

Escala:

5-7: Intenso ou todos os dias da semana;

2-4: Moderado ou de 2-4 vezes por semana;

1: leve ou 1 vez por semana;

0: Raro/ esporádico ou menos que 1x por semana.

Cabe ressaltar que esse paciente não estava enfrentando nenhum episódio de pânico no momento e que o ponto central no tratamento foi re-equilibrar os padrões de ondas que desencadeavam ansiedade e gasto de energia. Com o treinamento com neurofeedback, esse paciente conseguiu atender às demandas com menos gasto de energia, mais focado e, ao mesmo tempo, retornar ao seu padrão de relaxamento (redução da ativação simpática) mais rapidamente após lidar com as demandas cognitivas ou emocionais.

O neurofeedback é uma técnica focada no indivíduo e não necessariamente na patologia. Pessoas com os mesmos sintomas/ diagnósticos podem se beneficiar de treinamentos diferentes e personalizados, de acordo com as alterações no padrão cerebral que desencadeiam as queixas. O tempo de duração do tratamento é variável, dependendo de diversos fatores, dentre os quais: o quão rápido é o processo individual de aprendizagem de alto-regulação; o quanto cada um consegue transpor o estado mental produzido no treino para o dia a dia, mudanças na rotina; etc.

Entre em contato para saber o que o neurofeedback pode fazer por você!

[i] Consulte seu psiquiatra para entender melhor sobre o transtorno e sintomas.

[ii] obs: não citei o nome da medicação e deixei essa descrição bem genérica pois quero evitar que o post sirva de sugestão de medicações para o transtorno. O acompanhamento de um médico psiquiatra é fundamental para o uso de medicações psiquiátricas, como os indicados para ansiedade, síndrome do pânico, depressão e outros transtornos.

[iii] Mesma observação acima.

1a Conferência Brasileira de Biofeedback, agosto de 2013.

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1a Conferência Brasileira de Biofeedback

Chamada de Trabalhos

A partir de janeiro de 2013 está aberta a inscrição de trabalhos para a 1a Conferência Brasileira de Biofeedback, realizada pela Associação Brasileira de Biofeedback (ABBIO). O prazo para envio de resumos encerra-se em 15 de julho de 2013. As três áreas temáticas a seguir serão o foco deste ano, mas todos os interessados na área estão convidados a enviarem seus trabalhos.

Áreas temáticas:
Saúde: Neurofeedback com Pessoas dentro do Espectro Autista
Educação: Implementação de Biofeedback dentro das Escolas
Excelências: Biofeedback no Treinamento de Atletas de classe Mundial

Serão aceitos para consideração trabalhos em duas categorias:
– relato de experiência profissional;
– pesquisas (as pesquisas com humanos devem ter o termo de consentimento dos participantes ou, ainda, aprovação em comitê de ética);

Os resumos deverão ser enviados via e-mail, para o endereço eletrônico: abbiopublicacoes@gmail.com. Serão avaliados os trabalhos enviados até a data limite de 15 de julho de 2013. Os resultados serão comunicado ao primeiro autor, informando-se também o modelo de apresentação (pôster ou comunicação oral). Cada trabalho precisa ter, ao menos, 01 dos autores inscritos na Conferência.

Instruções para envio de Resumo:

  •  O resumo não deve ultrapassar 350 palavras, excluindo-se título e palavras-chaves. Os trabalhos devem ser enviados em letra ARIAL 10 e espaçamento 1,5. Título centralizado em negrito. Nomes dos autores alinhados a direita. Cada nome deve vir seguido da instituição ou afiliação profissional. Texto justificado.
  •  O resumo precisa conter as seguintes sessões claramente determinada:
  •  Objetivos
  •  Métodos
  •  Resultados
  •  Discussão
  •  Palavras chave (entre 3-5 palavras)

O evento contará com a participação de convidados nacionais e internacionais!

A programação será anunciada em breve em nosso site.

Regulando meu humor através da respiração

Preparei esse breve texto para entregar aos clientes que atendo, como forma de ajudar no processo de treinamento em biofeedback cardiovascular. Espero que seja interessante para vocês também!

Como o meu coração e minha respiração podem me ajudar a regular meu humor?

Os sistemas autonômicos simpático e parassimpático são os responsáveis por regular nossas funções vitais. No dia a dia, em decorrência de diferentes atividades e do ciclo circadiano, nosso organismo regula-se para se adaptar às diferentes situações. Essa regulação se chama homesostase corpórea.

A freqüência cardíaca varia naturalmente de acordo com a respiração (RSA – arritmia sinusal respiratória), com nossas atividades e estados de ativação. No dia a dia, em situações de repouso, há predomínio da ação parassimpática sobre o coração. Sempre que necessário, a ativação simpática desencadeia respostas fisiológicas de reação, que provocam aceleração do batimento cardíaco e aumento da freqüência cardíaca. Essa ação vem ao encontro do princípio de luta ou fuga, mobilizado pelo sistema simpático, sempre que precisamos reagir. A ativação simpática também influencia o sistema endócrino, que afeta o sistema cardiovascular. Permanecer no estado de ativação simpática, sobrecarrega nosso organismo.

Em relação aos transtornos de ansiedade, Kawachi e colegas (1995) investigaram os sintomas de ansiedade em 581 homens saudáveis, através da análise do poder espectral da variabilidade da freqüência cardíaca. Os homens que relatavam mais sintomas de ansiedade fóbica apresentaram, em repouso, frequencia cardíaca mais alta e menor variabilidade da freqüência cardíaca. Conclui-se que a ansiedade está associada a hiperatividade simpática. Em uma pesquisa realizada por Virtanen e colegas (2003), com 71 homens e 79 mulheres de meia-idade, constatou-se que a ansiedade e a hostilidade estão relacionadas à redução da atividade parassimpática e aumento do predomínio simpático.

Treinamento com biofeedback cardiovascular: o principal objetivo é aumentar a variabilidade da freqüência cardíaca, ou seja, a capacidade de modulação cardiovascular em reação a diferentes situações. De modo geral, o aumento da variabilidade da frequencia cardíaca reduz a ativação simpática, causada por estresse e ansiedade excessivas, e aumenta a ativação parassimpática. Além de monitorarem-se as variáveis da freqüência cardíaca, é possível associar a essa técnica de biofeedback o monitoramento da respiração, usando a arritmia sinusal respiratória (RSA) como uma forma de potencializar o efeito do biofeedback cardiovascular. A RSA é uma variação que ocorre no ritmo do coração em função da respiração, aumentando a freqüência cardíaca na inspiração e reduzindo-a na expiração. Ou seja, quando expiramos, diminuímos a freqüência cardíaca e aumentamos a influencia parassimpática no organismo.

O que fazer e como fazer: o alvo do RSA biofeedback é focar a atenção na expiração, buscando um estado de relaxamento. O pulmão é um órgão oco, em que o ar entra e sai, em função da compressão e expansão diafragmática. Desse modo, o diafragma se expande, proporcionando a entrada de ar nos pulmões, e se contrai, impulsionando o ar para fora. Conforme o ar entra no organismo, há um leve movimento de expansão, que pode ser sentido quando apoiamos nossa mão em cima da barriga. Quando o ar sai, sentimos um leve movimento no sentido contrário (barriga para dentro). Quando estamos relaxados, esse movimento é leve e fluido; quando estamos agitados, a respiração fica curta e o movimento com menor amplitude.

O processo consiste em tentar expirar (colocar o ar para fora) durante o dobro de tempo da inspiração. A taxa 6:3 (expirar contanto até 6 e inspirar contando até 3)  parece ser uma faixa agradável para a maioria das pessoas. Mas o ideal é que cada um consiga perceber qual a sua própria faixa.

Treine 1x por dia; no início, faça quanto tempo conseguir, e tente prolongar o período de treino por até 20 minutos. Lembrando que no início pode ser meio desconfortável, e que a tendência é “inflar” ao máximo, quando inspiramos. Mas não force muito. Tente fazer ao contrário… Tente esvaziar bastante, e depois apenas deixe o ar entrar o quanto for necessário.

Cuidado para não hiperventilar, e não forçar demais.

Som ambiente sempre ajuda.

Bom treino.

Terapia com Biofeedback: uma técnica de auto-regulação para saúde e bem estar

O treinamento em biofeedback é um poderoso processo terapêutico para gerenciamento de sintomas de desordens orgânicas ou relacionadas ao estresse, que desregulam nosso equilíbrio.

O termo Biofeedback é usado em referência aos processos de auto-regulação através da interface homem máquina, em que respostas fisiológicas são monitoradas e o usuário é capaz de aprender a modulá-las e, desse modo, ocorre a auto-regulação.

De modo geral, um conjunto de sensores capazes de monitorar certas respostas fisiológicas é ligado a um computador, que processa esses dados. A auto-regulação ocorre quando, ao visualizar uma interface na tela do computador, a pessoa aprende a modificá-la, ou seja, aprende a modificar também as suas respostas corporais.

Existem vários tipos de biofeedback, vou exemplificar alguns a seguir:

  • GSR biofeedback: o sensor pode ser posicionado na ponta dos dedos das mãos ou dos pés e capta a resposta galvânica da pele ou a resposta de condutividade da pele. Essa resposta corporal é muito sensível a alterações emocionais. Dependendo do nosso estado emocional, transpiramos mais nas mãos e extremidades do corpo, o que altera essa resposta de condutividade. O treinamento em GSR biofeedback é muito recomendado para transtornos de ansiedade e de estresse.
  • Biofeedback termal: Nessa técnica, o sensor também pode ser acoplado nas pontas dos dedos, e capta variações na temperatura das extremidades, através do fluxo sanguíneo de pequenos vasos capilares da pele. Quando ativamos nossas respostas de defesa, como ocorre em situações de estresse, os vasos se contraem e a temperatura tende a cair. Quando estamos mais relaxados, realizando atividades prazerosas e tranqüilas, os vasos dilatam e a temperatura nas extremidades tende a aumentar. Bastante recomendado para pessoas que precisam aprender a relaxar e também no tratamento de distúrbios vasculares específicos.
  • Neurofeedback: Essa modalidade de biofedback ocorre através do monitoramento das respostas cerebrais. Nosso cérebro apresenta padrões de ondas que podem ser captados através da caixa craniana, por sensores posicionados no couro cabeludo. Apresenta alta taxa de sucesso no tratamento e gerenciamento de sintomas de diversos transtornos, incluindo depressão, transtorno de déficit de atenção com ou sem hiperatividade (DDA, TDA, TDAH), transtornos de ansiedade (como síndrome do pânico e transtorno de estresse pós traumático), dentre outros. Esse tema é tão interessante que em breve dedicarei um post apenas para ele.
  • Biofeedback cardiovascular ou VFC biofeedback: Essa técnica de biofeedback trabalha com respostas captadas a partir do batimento cardíaco. Os sinais do coração podem ser captados através de sensores posicionados nas pontas dos dedos, que monitoram também os vasos sanguíneos capilares, ou através de sensores acoplados ao tórax, captando os batimentos cardíacos. Através do monitoramento da variabilidade da freqüência cardíaca (VFC) é possível obter indicadores relacionados ao equilíbrio de nossos sistemas de defesa e relaxamento. Desse modo, é possível inferir sobre nossa capacidade de resiliência, adaptação à atividades físicas e cognitivas, assim como nossa capacidade de relaxamento e bem estar. A terapia envolvendo VFC biofeedback é uma forma fácil e não invasiva de gerenciar transtornos e sintomas relacionados a diferentes estados psicológicos como estresse, ansiedade e depressão. No próximo post, apresentarei pesquisas que indicam alterações no padrão de VFC em certas comorbidades, e como o VFC biofeedback pode ser utilizado nessas situações.

O INEC (Inovações Neurotecnológicas para Educação Cerebral) http://www.educacaocerebral.com/lec/) está realizando um trabalho inovador no monitoramento de respostas cardiovasculares, desenvolvendo o software de monitoramento da variabilidade da freqüência cardíaca. Sou pesquisadora convidada do INEC, e juntos realizamos pesquisas voltadas para o desenvolvimento de tecnologias que possam ser utilizadas na promoção do bem estar, saúde e educação cerebral.

Nos links abaixo é possível ter mais informações sobre biofeedback:

http://www.educacaocerebral.com/biofeedback/

http://www.educacaocerebral.com/monitorvfc/

http://www.cerebromente.org.br/n04/tecnologia/biofeed.htm

E um vídeo sobre o trabalho realizado por uma psicoterapeuta em bostom. Esse é em inglês, quem sabe num futuro breve produzimos um em portugues?!