Biofeedback na Prática Clínica – Agosto de 2014

Você sabia que o biofeedback é uma ferramenta eficaz para auxiliar no tratamento de diversos transtornos psicológicos e somáticos?

Aprenda um pouco mais sobre a técnica no próximo curso “Biofeedback na Prática Clínica”, que acontecerá em Jundiaí – SP no dia 30/08/2014

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Ansiedade e Biofeedback/ Neurofeedback

“E agora, será que escrevo sobre esse assunto? Vou escrever logo, se não alguém escreve primeiro! Mas e o compromisso que eu tinha? E se eu escrever e as pessoas não gostarem? Vão pensar que não sou um bom profissional? Mas eu sou um bom profissional não? Ai, e se eles perceberem que eu não domino bem o assunto? E se? E se…”

Ondas de pensamento incontroláveis e disfuncionais, como esse “diálogo interno” que inventei e escrevi acima, podem vir acompanhados de um desconforto físico que muitas vezes é difícil definir. Uma mistura de pontada no estômago com dores nos ombros, parece que o coração vai sair pela boca e algumas vezes a mãos começam a “derreter” de tão suadas. A euforia inicial se transforma em agonia e preocupação excessiva, e as vezes até uma tristeza e sensação de fracasso, antes mesmo de ter tentado… Só de pensar no assunto, tudo isso acontece… E é difícil parar de pensar…

A cena descrita acima nos remete a alguns dos componentes que acompanham a ansiedade: pensamentos involuntários e incontrolados, aceleração do batimento cardíacos, aumento da sudorese (não apenas nas mãos, mas também nos pés e face/ cabeça), mal estar generalizado, tensão. Além disso, pode-se apresentar a boca seca, tremores e medo excessivo.

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Um quadro de ansiedade é comumente marcado por sintomas físicos, psíquicos (cognitivos e emocionais) e alterações fisiológicas. Esse é um mecanismo que se retroalimenta, em que as alterações fisiológicas desencadeiam reações cognitivos-emocionais (como pensamentos disfuncionais e acelerados e sentimentos de tristeza, desamparo e incerteza) e vice-versa.

As reações fisiológicas da ansiedade estão ligadas ao mecanismo de reação do nosso corpo: o sistema nervoso simpático. Ele é responsável pela resposta de luta ou fuga, e deveria ser mobilizado apenas nos momentos desafiadores, em que uma reação pontual e intensa fosse necessária. O ideal é que no dia a dia houvesse a predominância da ativação do sistema nervoso parassimpático, responsável pelos processos de manutenção corpórea, como digestão e relaxamento. Ou seja, o excesso de reatividade do sistema nervoso autônomo, trazendo o predomínio da ativação simpática, causa um desequilíbrio no ajuste fisiológico, desencadeando reações psíquicas e emocionais. Essas reações autônomas são comandadas pelo nosso cérebro e “padrões disfuncionais” de ativação cerebral estão relacionados com essa desregulação.

É importante lembrar que a resposta de reatividade é necessária e muitas vezes se mostrou fundamental em momentos difíceis, com desafios a serem superados. Porém, o desgaste físico e emocional causado pela manutenção do desequilíbrio é muito alto.

Sitema Nervoso Autonomo

Imagem: RENNER,Tanya. Psico A. Porto Alegre, McGrawHill, 2012; retirada do blog: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2013/05/sistema-nervoso-autonomo.html

Padrões Cerebrais e Ansiedade

Alguns padrões de EEG (eletroencefalografia) em repouso estão ligados aos problemas emocionais, como os que encontramos em casos de ansiedade.

A inversão na assimetria da região frontal do cérebro tem sido ligada a sintomas de ansiedade e depressão. De modo geral, espera-se que o hemisfério esquerdo do cérebro seja um pouco mais acelerado ou mais ativado que o direito. Estudos tem sugerido que o predomínio de ativação do hemisfério direito (assimetria invertida) do córtex frontal está relacionado a sintomas de depressão e ansiedade.

Estudos com pessoas com estresse pós traumático sugerem que esse transtorno está relacionado com um “poder reduzido” das ondas do tipo alfa na parte posterior do cérebro, assim como com o aumento de “poder” das ondas beta nessa região.  Alfa é um padrão de onda ligado a um estado de “paz mental” e um alto “poder” de alfa já foi verificado em monges budistas. Beta é um padrão de onda ligado a processos cognitivos e beta muito rápido (high beta) também está relacionado com padrões de ansiedade.

Links para artigos sobre o efeito da meditação no cérebro:

http://epileptologie-bonn.de/cms/upload/homepage/axmacher/Felletal_2010_Med_Hypotheses.pdf

http://www.rickhanson.net/wp-content/files/papers/AdvancedMedEffects.pdf

Como o Biofeedback e Neurofeedback podem me ajudar?

Existem dois caminhos para redução dos sintomas de ansiedade através dessas técnicas: um é focar mais no sistema nervoso autônomo, usando técnicas de biofeedback periférico como o biofeedback cardiovascular, de resposta galvânica da pele e de temperatura.

Clique aqui para ver alguns posts sobre o biofeedback:

https://julyneuro.wordpress.com/2010/06/08/terapia-com-biofeedback-uma-tecnica-de-auto-regulacao-para-saude-e-bem-estar/?preview=true&preview_id=53&preview_nonce=a8db4e4384&post_format=standard

https://julyneuro.wordpress.com/2010/09/14/regulando-meu-humor-atraves-da-respiracao/?preview=true&preview_id=160&preview_nonce=93303965bb&post_format=standard

https://julyneuro.wordpress.com/2010/06/18/variabilidade-da-frequencia-cardiaca-e-biofeedback/?preview=true&preview_id=60&preview_nonce=0566af3c67&post_format=standard

Outra é trabalhar com o Neurofeedback, técnica na qual o sinal monitorado é o EEG (ativação cerebral). Através do registro desse sinal e exibição dele na tela do computador, é possível aprender a modular as ondas cerebrais, alterando aos poucos os padrões disfuncionais. O treinamento com neurofeedback requer regularidade e persistência. Algumas pessoas aprendem com mais facilidade, outras demoram um pouco mais.

De modo geral, na minha prática, eu associo as duas técnicas na mesma sessão, com o objetivo de diminuir o padrão de reatividade fisiológica, desencadeado pelo sistema nervoso autônomo, e obter melhores resultados com o neurofeedback.

Em caso de dúvidas, entre em contato: julyneurop@gmail.com

cardioEmotion e biofeedback cardiovascular

cardioEmotion

O Cardioemotion é um software brasileiro para treinamento de biofeedback cardiovascular.

Com o código 20123 você ganha 1h de supervisão comigo sobre como

utilizar o sistema para seu treinamento de coerência cardiovascular.

O biofeedback cardiovascular é uma técnica de retro-alimentação biológica que apresenta benefícios comprovados na regulação dos sistemas de equilíbrio do corpo, através de informações vindas do batimento cardíaco. Em 2010 eu postei aqui algumas informações sobre o biofeedback cardiovascular ou de variabilidade da frequência cardiaca (ou ainda chamado de doerência cardíaca). Você podem ler em:https://julyneuro.wordpress.com/2010/06/18/variabilidade-da-frequencia-cardiaca-e-biofeedback/

Vou comentar rapidamente o princípio do biofeedback cardiovascular: um sensor capta o batimento cardíaco e capta o intervalo entre cada batimento, chamado de intervalo R-R. A variabilidade é extraída (matematicamente) a partir de medidas desses intervalos. Essa informação é disponibilizada na tela praticamente em tempo real (o delay ou tempo entre o seu batimento e a apresentação do estímulo na tela) tem que ser mínimo, pois caso contrário o feedback não tem efeito). Ao visualizar essas resposta é possível aprender a modulá-la, ou melhor, a pessoa aprende a interagir com o estímulo da tela a partir de sua resposta fisiológica.

O treinamento com biofeedback cardiovascular é relativamente fácil e sofre grande influência do nosso padrão de respiração. Por isso o Cardioemotion tem mecanismo para ajudar a dar ritmo à respiração. Assim, respirando no ritmo adequado, é possível entrar mais rápido em coerência. A respiração deve ser feita durante o treinamento e não é precisando continuar respirando no mesmo ritmo durante o restante do dia para manter os benefícios: com o tempo o corpo aprende a se auto-regular sozinho!

Vejam abaixo a tela inicial do Cardioemotio:

Tela inicial do software para biofeedback cardiovascular Cardioemotion

Em momentos de relaxamento e prazer o nosso coração deveria ter um ritmo mais baixos (menor frequência cardíaca em repouso) e em momentos de reação, de intensidade ou de estresse esse ritmo deveria aumentar, pois todo corpo se mobiliza.  Na prática, um coração com baixa variabilidade está respondendo mais ou menos do mesmo modo nas diversas situações do dia a dia, seja no repouso ou na reação, ou seja, o corpo está mantendo o padrão de estresse e gastando energia mesmo quando ele poderia (e deveria) estar mais relaxado. Esse padrão fisiológico é geralmente acompanhado de pensamentos que “invadem” a nossa mente o tempo inteiro, esgotamento físico, desânimo, podendo  contribuir para manutenção de quadros mais preocupantes, em termos de saúde física e mental.

A variabilidade da frequência cardíaca está relacionada à boa adaptação do indivíduo ao ambiente e diversos artigos demonstram melhora cognitivas e emocionais em pessoas que treinam coerência cardiovascular por 20 min, 3x por semana (entre 10 e 20 sessões de treinamento).

O Cardioemotion foi desenvolvido pela empresa Neuropsicotronics http://www.cardioemotion.com.br e estamos desenvolvendo alguns trabalhos em parceria. Assim, ao adquirir o sistema, se você digitar o código 20123 você ganha 1h de supervisão sobre o uso do sistema comigo.

Para maiores informações, pode entrar em contato por email: julyneurop@gmail.com

Biofeedback Cardiovascular: software para integração corpo-mente

O resumo a seguir foi premiado como melhor resumo extendido no congresso COMPUTER ON THE BEACH, realizado entre 29 de abril de 2011 e 01 de maio. Nesse post apresento o resumo premiado. Vocês podem obter mais informções sobre o software no site http://www.educacaocerebral.com. Parabéns prof. Dr. Emílio Takase, do Laboratório de Educação Cerebral (LEC) do Departamento de Psicologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – Florianópolis – SC, ao Mestrando Diego Schmaedech, do 2Laboratório de Computação Aplicada (LaCA) – Departamento de Eletrônica e Computação – Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – Santa Maria – RS e à toda a equipe do laboratório pelos projetos desenvolvidos!

Você pode visitar o site do congresso pelo endereço: http://www.computeronthebeach.com.br/2011/

Biofeedback Cardiovascular: software para integração

corpo-mente

Ma. July Silveira Gomes1, Diego Schmaedech2, Prof. Dr. Emílio Takase1

1Laboratório de Educação Cerebral (LEC) – Departamento de Psicologia – Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) – Florianópolis – SC – Brasil

2Laboratório de Computação Aplicada (LaCA) – Departamento de Eletrônica e Computação – Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) – Santa Maria – RS – Brasil

july@sina-psi.com, schmaedech@gmail.com, takase@cfh.ufsc.br

Abstract: This paper introduces a Brazilian cardiovascular biofeedback platform, developed from a cardiac monitoring device (transmitter chest strap) available on the market. The software platform is free and aims to support the development of interactive systems in the mentioned technique.

1. Resumo Expandido

O biofeedback é uma técnica não invasiva da medicina comportamental de integração mente e corpo que utiliza instrumentos eletrônicos para auxiliar os indivíduos no desenvolvimento de consciência e controle sobre processos psicofisiológicos [Carolyn Yucha 2004]. O presente trabalho visa apresentar o desenvolvimento de um sistema de biofeedback cardiovascular que utiliza dados da variabilidade da freqüência cardíaca (VFC) para o processo de retroalimentação biológica. A VFC tem sido apontada como um fidedigno indicador de saúde e adaptabilidade do organismo ao meio [Lehrer et al. 2006], sendo que sua diminuição está ligada ao aumento do risco de morte em pacientes que sofrem de doenças cardíacas e coronárias [European Society of Cardiology et al. 1996]. A VFC também se mostra reduzida em pacientes com transtornos psiquiátricos. Assim, pesquisadores têm investigado formas de aumentar a VFC através do treinamento cognitivo e respiratório, conhecido como biofeedback cardiovascular [Nolan et al. 2008].

O Laboratório de Educação Cerebral (LEC), percebendo a inexistência de softwares de biofeedback brasileiros, tem investido no desenvolvimento de uma plataforma para criação de sistemas de biofeedback cardiovascular de baixo custo que funciona a partir da integração de dispositivos já consolidados no mercado. Esta abordagem é comumente referida como COTS (Commercial Off-the-Shelf) termo designado para definir uma tecnologia que já está pronta e disponível para venda. Atualmente a plataforma suporta os dispositivos de monitoramento cardíaco (cinta transmissora) da marca Polar, representados no Brasil pela empresa Proximus [Proximus Tecnologia 2011].

O objetivo desse trabalho é apresentar este sistema inovador, cuja plataforma está sendo desenvolvida sob licenças de software livre e visa fornecer as bases para a criação deste tipo de sistema. Atualmente o software construído para demonstração da plataforma é capaz de exibir em modo gráfico e em tempo de execução as principais variáveis estudadas por pesquisadores em VFC e treinadas através da técnica de biofeedback cardiovascular, dentre as quais: 1) domínio do tempo: batimento cardíaco, média do batimento cardíaco, SDNN, RMSSD; 2) domínio da freqüência: HF, LH, VLF; 3) análise não-linear: SD1, D2, dentre outras. Outras características são: interfaces amigáveis de cadastro de clientes que persiste em uma base de dados embarcada, exportação e importação dos dados em ASCII e a modularização de games e animações que utilizam os valores das variáveis como input. Um exemplo desse módulo é o game Tetris que varia a velocidade de descida da peça em função de alguma variável do domínio do tempo ou domínio da freqüência ou não-linear selecionada pelo usuário.

Este sistema está sendo utilizado de modo experimental em atendimentos clínicos com biofeedback VFC e mostra-se efetivo quanto aos princípios básicos de retroalimentação, pré-requisito para o treino de auto-regulação do Sistema Nervoso Autônomo (Simpático e Parassimpático). No corrente ano, esse sistema será utilizado em caráter experimental em uma escola federal de SC no treinamento de auto-regulação de crianças com dificuldades de aprendizagem.

Referências

Carolyn Yucha, D. M. (2004). Evidence based practice in biofeedback and neurofeedback. Association for Applied Psychophysiology and Biofeedback.

Lehrer, P., Vaschillo, E., Lu, S.-E., Eckberg, D., Vaschillo, B., Scardella, A., and Habib, R. (2006). Heart rate variability biofeedback: effects of age on heart rate variability, baroreflex gain, and asthma. Chest, 129(2):278–284.

Nolan, R. P., Jong, P., Barry-Bianchi, S. M., Tanaka, T. H., and Floras, J. S. (2008). Effects of drug, biobehavioral and exercise therapies on heart rate variability in coronary artery disease: a systematic review. Eur J Cardiovasc Prev Rehabil, 15(4):386–396.

European Society of Cardiology, the North American Society of Pacing, and Electrophysiology (1996). Heart rate variability. standards of measurement, physiological interpretation, and clinical use. Task Force of the European Society of Cardiology and the North American Society of Pacing and Electrophysiology. Eur Heart J, 17(3):354–381.

Proximus Tecnologia. (2011). http://www.proximus.com.br/. Acessado em 15 out. 2010.

Regulando meu humor através da respiração

Preparei esse breve texto para entregar aos clientes que atendo, como forma de ajudar no processo de treinamento em biofeedback cardiovascular. Espero que seja interessante para vocês também!

Como o meu coração e minha respiração podem me ajudar a regular meu humor?

Os sistemas autonômicos simpático e parassimpático são os responsáveis por regular nossas funções vitais. No dia a dia, em decorrência de diferentes atividades e do ciclo circadiano, nosso organismo regula-se para se adaptar às diferentes situações. Essa regulação se chama homesostase corpórea.

A freqüência cardíaca varia naturalmente de acordo com a respiração (RSA – arritmia sinusal respiratória), com nossas atividades e estados de ativação. No dia a dia, em situações de repouso, há predomínio da ação parassimpática sobre o coração. Sempre que necessário, a ativação simpática desencadeia respostas fisiológicas de reação, que provocam aceleração do batimento cardíaco e aumento da freqüência cardíaca. Essa ação vem ao encontro do princípio de luta ou fuga, mobilizado pelo sistema simpático, sempre que precisamos reagir. A ativação simpática também influencia o sistema endócrino, que afeta o sistema cardiovascular. Permanecer no estado de ativação simpática, sobrecarrega nosso organismo.

Em relação aos transtornos de ansiedade, Kawachi e colegas (1995) investigaram os sintomas de ansiedade em 581 homens saudáveis, através da análise do poder espectral da variabilidade da freqüência cardíaca. Os homens que relatavam mais sintomas de ansiedade fóbica apresentaram, em repouso, frequencia cardíaca mais alta e menor variabilidade da freqüência cardíaca. Conclui-se que a ansiedade está associada a hiperatividade simpática. Em uma pesquisa realizada por Virtanen e colegas (2003), com 71 homens e 79 mulheres de meia-idade, constatou-se que a ansiedade e a hostilidade estão relacionadas à redução da atividade parassimpática e aumento do predomínio simpático.

Treinamento com biofeedback cardiovascular: o principal objetivo é aumentar a variabilidade da freqüência cardíaca, ou seja, a capacidade de modulação cardiovascular em reação a diferentes situações. De modo geral, o aumento da variabilidade da frequencia cardíaca reduz a ativação simpática, causada por estresse e ansiedade excessivas, e aumenta a ativação parassimpática. Além de monitorarem-se as variáveis da freqüência cardíaca, é possível associar a essa técnica de biofeedback o monitoramento da respiração, usando a arritmia sinusal respiratória (RSA) como uma forma de potencializar o efeito do biofeedback cardiovascular. A RSA é uma variação que ocorre no ritmo do coração em função da respiração, aumentando a freqüência cardíaca na inspiração e reduzindo-a na expiração. Ou seja, quando expiramos, diminuímos a freqüência cardíaca e aumentamos a influencia parassimpática no organismo.

O que fazer e como fazer: o alvo do RSA biofeedback é focar a atenção na expiração, buscando um estado de relaxamento. O pulmão é um órgão oco, em que o ar entra e sai, em função da compressão e expansão diafragmática. Desse modo, o diafragma se expande, proporcionando a entrada de ar nos pulmões, e se contrai, impulsionando o ar para fora. Conforme o ar entra no organismo, há um leve movimento de expansão, que pode ser sentido quando apoiamos nossa mão em cima da barriga. Quando o ar sai, sentimos um leve movimento no sentido contrário (barriga para dentro). Quando estamos relaxados, esse movimento é leve e fluido; quando estamos agitados, a respiração fica curta e o movimento com menor amplitude.

O processo consiste em tentar expirar (colocar o ar para fora) durante o dobro de tempo da inspiração. A taxa 6:3 (expirar contanto até 6 e inspirar contando até 3)  parece ser uma faixa agradável para a maioria das pessoas. Mas o ideal é que cada um consiga perceber qual a sua própria faixa.

Treine 1x por dia; no início, faça quanto tempo conseguir, e tente prolongar o período de treino por até 20 minutos. Lembrando que no início pode ser meio desconfortável, e que a tendência é “inflar” ao máximo, quando inspiramos. Mas não force muito. Tente fazer ao contrário… Tente esvaziar bastante, e depois apenas deixe o ar entrar o quanto for necessário.

Cuidado para não hiperventilar, e não forçar demais.

Som ambiente sempre ajuda.

Bom treino.

Variabilidade da Frequencia Cardíaca e Biofeedback

SENTIMENTO é a linguagem que o coração usa quando precisa mandar algum recado… (autor desconhecido).

O coração tem uma linguagem própria. Apesar de a neurociência já ter demonstrado que o cérebro é o responsável pelo processamento das informações afetivas e dos sentimentos, é fato que o ritmo do nosso coração reflete nosso estado afetivo. Não é sem razão o comentário popular de que aqueles que sofrem por amor estão com o coração apertado, não é?

São inúmeras as investigações científicas acerca do funcionamento cardíaco e sua relação com estados de humor e estados psicológicos (veja a lista de referências no final desse post). A análise dos intervalos entre os batimentos cardíacos, conhecida como variabilidade da freqüência cardíaca, permite extrair diferentes informações sobre o balanço autonômico, ou seja, o equilíbrio entre nossos sistemas de ativação (sistema nervoso simpático, conhecido como sistema de luta ou fuga) e de repouso (sistema parassimpático, conhecido como sistema de repouso e digestão). No dia a dia, em situações de repouso, há predomínio da ação parassimpática sobre o coração. Sempre que necessário, a ativação simpática desencadeia respostas fisiológicas de reação, que provocam aceleração do batimento cardíaco.

A literatura aponta que a VFC é um bom indicador do funcionamento autonômico e um importante preditor do risco de morte para pessoas que sofrem de doenças cardíacas e coronárias (Task Force 1996; Stein and Kleiger 1999; Sved 1999). Além disso, exisite certa relação entre algumas dessas variáveis e transtornos psiquiátricos (Cohen, Matar et al. 1999; Cohen, Benjamin et al. 2000; Kemp, Malhotra et al. 2003; Henry, Minassian et al. 2009; Kemp, Quintana et al. 2010). Veja abaixo o que os artigos científicos tem mostrado:

software variabilidade frequencia cardiaca

– Cohen e colaboradores (1999), em sua revisão, apontam que pessoas com esquizofrenia sob efeito de medicação, principalmente a clozapina, apresentam elevada freqüência cardíaca e baixa variabilidade da freqüência cardíaca. Acredita-se que, nesses pacientes, a diminuição da VFC esteja vinculada a uma resposta positiva às propriedades colinérgicas desse fármaco;

– Sowden e Hufman (2009) indica que, apesar de a diminuição da VFC ser considerada um fator de risco para doenças cardiovasculares, e em paciente esquizofrênicos estar associada à síndrome metabólica (ganho de peso, diabetes) – o que aumenta os fatores de risco para doenças do coração como infarto do miocárdio – as taxas de mortalidade em pacientes sem tratamento é maior do que para aqueles tratados com essa droga;

– Na pesquisa de Henry e colaboradores (2009) os pacientes internados com esquizofrenia e depressão bipolar apresentam disfunção no balanço entre os sistemas simpático e parassimpático, com indicadores de baixa VFC e reduzida atividade parassimpática (Henry, Minassian et al. 2009);

– A depressão tem sido associada à diminuição da VFC (Kemp, Quintana et al. 2010). Sowden (2009) acrescenta que os antidepressivos inibidores da recaptação da serotonina são os mais indicados para pacientes depressivos com problemas cardiovasculares. Nesse caso, verificam-se indicadores de melhoras no prognóstico de infarto do miocárdio e outros eventos cardíacos.

– De um modo geral, quanto mais severos os sintomas, menor a VFC e, conseqüentemente, maiores os riscos de doenças ou episódios cardiovasculares agudos (Henry, Minassian et al. 2009; Kemp, Quintana et al. 2010).

– Em relação aos transtornos de ansiedade, a baixa VFC tem sido relacionada à hiper-ativação simpática. Esse padrão de hiper-ativação também é encontrado em pessoas com distúrbio de pânico e transtorno de estresse pós-traumático, em repouso.

Como biofeedback cardiovascular pode ajudar a melhorar os sintomas e o meu estado psicológico?

As técnicas de biofeedback são técnicas de treinamento. No caso do biofeedback cardiovascular ou VFC, sensores captam o batimento cardíaco e extraem certas variáveis (através de análises estatísticas). Através de um computador, esses sinais são mostrados de alguma forma para o usuário: sob a forma de gráficos ou associado à mídias (nesse caso a mídia funciona como um estímulo condicionado).

O processo de auto-regulação evolui de diferentes formas para cada pessoa. De um modo geral, inicialmente a pessoa trabalha para perceber suas sensações, e observa as alterações nos gráficos em função do seu estado de ativação ou relaxamento. Essa associação vai ser fortalecendo, nem sempre de modo consciente, e o usuário aprende a modular essas variáveis. O principal objetivo é aumentar a VFC. Aumentando a VFC, melhora-se o balanço autonômico, refletindo em melhoras na qualidade de vida.

Biofeedback é um método indolor, não medicamentoso, indicado para:

– distúrbios do sono;

– distúrbios de ansiedade;

– síndrome do pânico;

– depressão;

– fobias;

– asma;

– transtornos de atenção;

– problemas cardiovasculares;

– dor crônica;

– fibromialgia;

– distúrbios que afetam sistema autonômico de modo geral;

Referências:

Cohen, H., J. Benjamin, et al. (2000). “Autonomic dysregulation in panic disorder and in post-traumatic stress disorder: application of power spectrum analysis of heart rate variability at rest and in response to recollection of trauma or panic attacks.” Psychiatry Res 96(1): 1-13.

Cohen, H., M. A. Matar, et al. (1999). “Power spectral analysis of heart rate variability in psychiatry.” Psychother Psychosom 68(2): 59-66.

Henry, B. L., A. Minassian, et al. (2009). “Heart rate variability in bipolar mania and schizophrenia.” J Psychiatr Res 44(3): 168-76.

Kemp, A. H., D. S. Quintana, et al. (2010). “Impact of depression and antidepressant treatment on heart rate variability: a review and meta-analysis.” Biol Psychiatry 67(11): 1067-74.

Kemp, D. E., S. Malhotra, et al. (2003). “Heart disease and depression: don’t ignore the relationship.” Cleve Clin J Med 70(9): 745-6, 749-50, 752-4 passim.

Stein, P. K. and R. E. Kleiger (1999). “Insights from the study of heart rate variability.” Annu Rev Med 50: 249-61.

Sved, A. F. (1999). Cardiovascular System. Fundamental Neuroscience. M. J. Zigmond. San Diego, Academic Press: 1051-1061.

Task Force (1996). “Heart rate variability. Standards of measurement, physiological interpretation, and clinical use. Task Force of the European Society of Cardiology and the North American Society of Pacing and Electrophysiology.” Eur Heart J 17(3): 354-81.