Aplicações Neurofeedback Parte 2: Transtornos Psiquiátricos na Vida Adulta

Diversos são os transtornos que ocorrem na vida adulta que podem ser tratados com neurofeedback. O objetivo desse post é apresentar uma visão geral das intervenções mais consolidadas acerca das aplicações do neurofeedback nos quadros psiquiátricos da vida adulta, com base em resultados de pesquisas científicas (nesse post não irei considerar transtornos neurológicos). Ao final, uma lista de referências (em português e em inglês) com links (algumas vezes é possível ler apenas o abstract) de artigos nos quais eu me baseei para produzir esse post.

Já vimos no post anterior sobre as aplicações na infância que os primeiros estudos acerca da possibilidade de autorregulação biológica voluntaria datam de 1950, por Neal E. Miler e que recentemente o neurofeedback tem se tornado mais acessível, tanto em termos técnicos, quanto teórico e instrumental.

Muitas pesquisas têm apresentado resultados promissores no tratamento dos transtornos de ansiedade, transtorno obsessivo compulsivo (TOC) e na depressão.

man-69283_1280

Essa imagem foi retirada de http://pixabay.com/

Os quadros de ansiedade envolvem, de modo geral, um componente cognitivo-emocional projetado para o futuro, trazendo uma sensação de incerteza e angústia. A ansiedade pode se configurar como um transtorno isolado, ou vir acompanhada (ou acompanhar) outros transtornos. Diversos trabalhos têm demonstrado que, independente dessa configuração, a ansiedade responde bem ao tratamento com neurofeedback. Já o TOC, caracterizado pelos pensamentos obsessivos e comportamentos compulsivos, compartilha também sintomas de ansiedade, e tende a ter uma resposta similar, porém o treinamento pode ser mais prolongado.

Nos quadros depressivos e de desregulação do humor, o treinamento tem sido mais promissor com aqueles cujo transtorno é leve à moderado, sendo mais prolongado na depressão grave.

A associação de diferentes modalidades, incluindo biofeedback associado ao neurofeedback, é de grande valia para um tratamento global do transtorno e contribui para a generalização em situações fora do ambiente terapêutico.

 

 

Como funciona?

O princípio de funcionamento do neurofeedback é baseado na capacidade de associação e aprendizagem do nosso cérebro. Utilizando-se sensores capazes de captar respostas biológica cerebrais (variando de acordo com a modalidade) é possível o treinamento de autoregulação, através da retroalimentação biológica. Na prática, a resposta captada é utilizada pelo próprio paciente como informação para que ele aprenda a regular essa resposta, muitas vezes controlando um filme, um game ou produzindo notas musicais (no caso, essas mídias são controladas pelos padrões de ativação registrados).

Depois de um certo número de sessões, o organismo desenvolve a capacidade de manter essa regulação, mesmo fora do ambiente clínico, trazendo melhoras globais no funcionamento e performance do paciente.

É importante ressaltar a importância de uma boa anamnese e avaliação do paciente, de modo que o protocolo seja personalizado de acordo com as necessidades e demandas individuais.

 

Entre em contato para saber como o neurofeedback pode ajudar!

julyneurop@gmail.com

(11) 985718551

Atualizações na minha página do Facebook, clique aqui.

puzzle-cerebro42_1

Artigos:

Londero I, Gomes JS. Neurofeedback hemoencefalográfico (HEG): possibilidades de aplicações no campo da saúde. Ciência e Cognição. 2014; Vol 19(3) 307-314

Gomes JS, Coghi MF, Coghi PF. Biofeedback cardiovascular e suas aplicações: revisão de literatura. Avances en Psicología Latinoamericana. 2014; 32(2):199-216.

Dias ÁM. Tendências do neurofeedback em psicologia: revisão sistemática. Psicologia em Estudo. 2010: 811-820.

Dias ÁM, Van Deusen AM, Oda E, Bonfim MR. Clinical efficacy of a new automated hemoencefalographic neurofeedback protocol. The Spanish Journal of Psychology. 2012; 15(03):930-941

Hammond DC. What is neurofeedback: An update. Journal of Neurotherapy. 2011; 15 (4): 305-336.

Schoenberg PLA, David AS. Biofeedback for psychiatric disorders: a systematic review. Applied Psychophysiology and Biofeedback. 2014; 39(2):109-135

Relato de Caso: Neurofeedback e Transtorno de Pânico

“Tenho 40 anos de idade e há 15 anos convivo com sintomas e limitações por conta de um transtorno psiquiátrico chamado Síndrome do Pânico.  Com o tratamento farmacológico os sintomas foram controlados, porém comportamentos de esquiva e evitação sempre me acompanharam. Hoje estou no 6 semestre do curso de psicologia e um dia navegando pela internet tive meu primeiro contato com o neurofeedback. Me interessei e passei a estudar sobre a técnica. Como gostei muito da teoria, resolvi experimentá-la em minha própria patologia. Entrei em contato com a psicóloga July Silveira Gomes e marquei, a princípio, 10 sessões. Como senti muita melhora decidimos fazer mais 10.

Durante este período apareceu o grande teste: pintou uma viagem para a Inglaterra e eu me senti preparado a enfrentar o desafio, mesmo com o inglês limitado e sabendo que ficaria sozinho em Londres grande parte do tempo.

Por fim, enfrentei 10 horas de vôo, algo até então impensável para mim. A viagem foi maravilhosa, passei dez dias rodando pela Inglaterra e aqui estou escrevendo este depoimento pois fiquei encantado com os resultados que obtive com o neurofeedback.” (Paciente Anônimo)

Foi muito bacana ter recebido esse depoimento e perceber o quanto esse paciente estava animado em compartilhar os resultados obtidos com o treinamento aqui no blog.

O transtorno de pânico se enquadra na categoria dos transtornos de ansiedade (de acordo com o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, 5ª. edição – DSM-5) e possui características bem específicas. A ocorrência de mais de um episódio de pânico é condição sine qua non (imprescindível) para o diagnóstico. Um “episódio de pânico” se refere a um “surto abrupto de medo ou desconforto intenso que alcança um pico em minutos…” (DSM-5, 2014) com sintomas como palpitação, sudorese, sensação de asfixia, medo de morrer, dentre outros. Existem 13 sintomas que o médico psiquiatra usa como critério diagnóstico.[i]

Ao me procurar, esse paciente demonstrava comportamentos de preocupação e ansiedade com coisas cotidianas. A pressão no trabalho (ele tem um negócio próprio), na faculdade e o ritmo de vida o deixavam bastante “acelerado” e ansioso. Além disso, a preocupação com a re-ocorrência de uma nova crise de pânico o deixava em alerta o tempo inteiro. Ao iniciar o tratamento, ele tomava uma medicação para o pânico[ii] e, além disso, possuía um ansiolítico[iii] na bolsa para usar caso ocorresse uma crise. Afirmou que esse último funcionava como um “amuleto” do qual não conseguia se desvincular, mesmo fazendo mais de 6 meses que não tinha nenhuma crise.

Na avaliação de sintomas, realizada no primero encontro, ele destacou se preocupar excessivamente com as coisas em geral, ter pressa para completar tarefas, ter dificuldade em organizar prioridades, em lembrar séries de números e em sentar sem mover braços e pernas. Além disso, relatou sentir ansiedade e medo sem motivos aparentes para tal. O paciente já praticava Yoga há 2 anos como modo de gerenciar sua ansiedade.

O treinamento com neurofeedback foi realizado durante 20 sessões, durante os meses de julho e novembro de 2014. O protocolo de treinamento foi focado em reduzir ondas excessivamente lentas e excessivamente rápidas na região fronto-temporal e no aumento de ondas do ritmo beta na região frontal do hemisfério esquerdo e de ondas beta-lento na região sensório-motora do hemisfério direito. Além do treinamento do neurofeedback, associou-se o treinamento domiciliar com o biofeedback cardiovascular, com recomendação de uso diário.

Na 5ª. sessão (3a. semana de tratamento) o paciente relata que parou de andar com o ansiolítico na carteira. Afirmou estar sentindo-se muito bem, que sua confiança aumentara com a prática do biofeedback e que estava se sentindo preparado para lidar com as situações que antes evitava por serem (para ele) desencadeantes de ansiedade, como trânsito, ônibus e metrô.

A diminuição da dependência a recursos externos, assim como o aumento da capacidade de autogerenciamento fisiológico foram de vital importância para o sucesso da intervenção, propiciando a redução dos comportamentos de esquiva e aumento da confiança no enfrentamento das situações ansiogênicas, gerando um esquema de retroalimentação onde a cada conquista o paciente reforçava positivamente sua autoconfiança e, assim, foi se tornando mais resiliente contra possíveis recidivas do transtorno.

O gráfico abaixo exibe a intensidade dos principais sintomas percebidos pelo paciente ao início (linha azul), meio (linha laranja) e ao fim do tratamento.

sintomas

Escala:

5-7: Intenso ou todos os dias da semana;

2-4: Moderado ou de 2-4 vezes por semana;

1: leve ou 1 vez por semana;

0: Raro/ esporádico ou menos que 1x por semana.

Cabe ressaltar que esse paciente não estava enfrentando nenhum episódio de pânico no momento e que o ponto central no tratamento foi re-equilibrar os padrões de ondas que desencadeavam ansiedade e gasto de energia. Com o treinamento com neurofeedback, esse paciente conseguiu atender às demandas com menos gasto de energia, mais focado e, ao mesmo tempo, retornar ao seu padrão de relaxamento (redução da ativação simpática) mais rapidamente após lidar com as demandas cognitivas ou emocionais.

O neurofeedback é uma técnica focada no indivíduo e não necessariamente na patologia. Pessoas com os mesmos sintomas/ diagnósticos podem se beneficiar de treinamentos diferentes e personalizados, de acordo com as alterações no padrão cerebral que desencadeiam as queixas. O tempo de duração do tratamento é variável, dependendo de diversos fatores, dentre os quais: o quão rápido é o processo individual de aprendizagem de alto-regulação; o quanto cada um consegue transpor o estado mental produzido no treino para o dia a dia, mudanças na rotina; etc.

Entre em contato para saber o que o neurofeedback pode fazer por você!

[i] Consulte seu psiquiatra para entender melhor sobre o transtorno e sintomas.

[ii] obs: não citei o nome da medicação e deixei essa descrição bem genérica pois quero evitar que o post sirva de sugestão de medicações para o transtorno. O acompanhamento de um médico psiquiatra é fundamental para o uso de medicações psiquiátricas, como os indicados para ansiedade, síndrome do pânico, depressão e outros transtornos.

[iii] Mesma observação acima.

Relato de Caso: Neurofeedback e os Desafios da Vida Cotidiana

Há pelo menos 3 meses venho ensaiando esse post… Porém, envolvida nos afazeres e estresse da vida diária, posterguei, procrastinei e fiz escolhas… as escolhas me trouxeram consequências e essas, por sua vez, me deram ainda mais trabalho do que eu já tinha… e o post foi ficando de lado…

Não que as prioridades tenham sido invertidas: o post podia esperar; porém, algumas vezes, a vida toma contornos inesperados perante os quais a única saída é seguir em frente, lidando com os desafios até que o emaranhado vire um novelo de fios harmoniosamente sobrepostos.

(Autorreflexão da própria autora do blog, psicóloga July Silveira Gomes)

Quem nunca se viu frente a um emaranhado de situações, igualmente importantes e urgentes mas que, se não resolvidas da forma adequada, acabam trazendo resultados desastrosos e, em alguma instância, a sensação de que a vida é uma montanha russa (e que nesse momento ela está na sua parte descendente)?

rollercoaster-535clip-art-rollercoaster-896034

Bem, esse post é para falar sobre como uma mulher de 30 anos, bem sucedida profissionalmente e independente, chegou até mim à procura do tratamento com neurofeedback com essa sensação. Ela já havia realizado terapia há alguns anos em sua cidade natal, da qual se mudou após a aprovação em um concurso na cidade de São Paulo. Na primeira sessão, todos os sucessos obtidos anteriormente pareciam ter ficado num passado do qual ela falava com saudosismo, como se não tivesse mais energia para ser (ou não soubesse como fazer para voltar a ser) tão batalhadora como antes. Não havia nenhuma crise instalada na sua vida, mas a zona de (des)conforto na qual se encontrava fazia com evitasse novos desafios (profissionais) e mantivesse uma relação afetiva que lhe trazia alguns benefícios secundários, comparados ao estresse emocional, “dor de cabeça” e ciúmes desencadeados.

Seus principais sintomas envolviam questões psico-emocionais (baixa auto-estima, ansiedade e preocupação excessiva), comportamentais (comportamentos compulsivos, especialmente alimentares, procrastinação, dificuldade em eleger prioridades e em organizar o tempo), problemas de sono (dificuldade em iniciar o sono e de acordar descansada/ sem sono restaurador; pesadelo; sonolência durante o dia) e nas relações interpessoais (falta de paciência com os outros). Utilizando escores que variavam de 0-7 (veja legenda antes da tabela), foram elencados 7 sintomas para serem monitorados ao longo do tratamento. A tabela a seguir exibe os escores em 3 momentos do tratamento: início, meio e fim:

Escores:

0= não tive esse sintoma nenhum dia  na última semana;

1= esse sintoma é leve ou raro;

2, 3 e 4 = esse sintoma é moderado;

5, 6 e 7= esse sintoma é severo/ contínuo ou o senti todos os dias na última semana

Início Meio Fim
Sintomas 10 de março 05 de maio 05 de junho
Ansioso 7 4 1
Dificil cair no sono 7 6 1
Dificil acordar descansado 7 3 0
Baixa auto estima 7 2 0
Pressão no peito 7 2 0
Acorda durante sono 7 3 1
Compulsividade 6 2 1

O treinamento foi definido com base nos dados eletrofisiológicos (EEG) e nos sintomas apresentados, sendo estabelecidos protocolos para aumento da perfusão pré-frontal, seguido pelo reforço ao aumento das ondas de 12-15hz na região sensório motora do hemisfério direito (C4, de acordo com o Sistema Internacional de Colocação dos Eletrodos 10-20) e beta no córtex frontal esquerdo (F3, de acordo com o Sistema Internacional de Colocação dos Eletrodos 10-20).

Até a 4ª. Sessão, a paciente apresentava pequenas mudanças, mas parecia relutante em acreditar nos possíveis efeitos de uma terapêutica realizada através de sensores na caixa craniana. Após 15 dias de intervalo em função de uma viagem previamente programada, a paciente retornou ao tratamento otimista, relatando que observara diferenças significativas no seu comportamento, durante a viagem: havia dormido bem todos os dias da viagem (sem precisar usar medicamento para induzir o sono), manteve-se com energia durante o dia (sem cair no sono inapropriadamente) e não sentiu-se incomodada com provocações de outrem (que normalmente a tirariam do sério, deixando-a ansiosa e com compulsividade alimentar).

O treinamento completo foi realizado por 20 sessões, depois das quais a paciente recebeu alta. Ao final do tratamento, a paciente estava confiante o suficiente a ponto de iniciar uma pós graduação stricto senso. Vinte dias após o término, recebi o seguinte depoimento, o qual eu gostaria de compartilhar:

Mesmo tendo apenas 30 anos, um emprego super flexível, casa própria, estabilidade familiar, eu apresentava sintomas de alguém que estava buscando constante e arduamente estabilidade na vida: estresse, insônia, irritação, incapacidade para lidar com os problemas cotidianos. O neurofeedback se apresentou como uma alternativa e, de fato, funcionou. Pude perceber melhoras no meu comportamento e na qualidade do meu sono de forma até muito rápida. Menos ansiedade, mais disposição ao acordar, menos sono em horas inconvenientes e maior adaptabilidade foram meus maiores ganhos“. (Paciente anônima de neurofeedback)

O neurofeedback é um treinamento que visa restaurar o desequilíbrio entre o sistema fisiológico e o psico-emocional. Tem uma gama de aplicações e estudos cada vez maior. Informe-se sobre a técnica e procure um profissional na sua cidade!

Relato de Caso: quando a ansiedade afeta o sistema gastro-intestinal.

Em posts anteriores, comentei sobre a ansiedade e o tratamento com neurofeedback (veja aqui) e também a sua relação com o lobo frontal (veja aqui).

O objetivo desse post é exemplificar, a partir de uma intervenção real, como a redução da ansiedade através do neurofeedback pode reduzir os sintomas a ela associados. Um dos indicadores biológicos da ansiedade é a excessiva ativação do sistema simpático, responsável pelo mecanismo de luta ou fuga (leia mais aqui). Ou seja, ele causa aceleração do batimento cardíaco e mobiliza o corpo fisiologicamente para uma reação frente a situação que é subjetivamente percebida como ameaçadora.

Quando essa ativação é excessiva e prolongada, o organismo entra em estado de fadiga e desregulação autonômica, causando diversos sintomas (que podem variar de pessoa para pessoa). No caso desse paciente que irei descrever (e cuja a identidade manterei anônima), as queixas se centravam em desagradáveis sintomas gastro-intestinais, incluindo desconforto e inchaço na região do abdominal e flatulência excessiva, muitas vezes constrangendo o paciente em situações sociais.

O tratamento iniciou com duas avaliaçãoes: dos sintomas percebidos pelo paciente e dos dados eletrofisiológicos do cérebro (EEG). Também foram definidos objetivos que o paciente gostaria de obter ao final do tratamento, e que serviram de indicadores para a alta. Dentre os objetivos, destacam-se: redução na sensação de descontrole gastro-intestinal, redução na ansiedade em situações sociais, aumentar a frequência de atividades sociais e acordar descansado após 8hs de sono. Seu escore na escala de ansiedade de Beck foi 25, indicando ansiedade moderada (quase severa).

Para o treinamento, realizado 2x por semana, definiu-se trabalhar ondas na faixa de beta 1 na região sensório motora, a predominância das ondas alfa e beta no lobo frontal e a cada 4 sessões um treino específico para aumentar as ondas do tipo alfa.

brain

(Fonte: http://cienciasecognicao.org/neuroemdebate/?p=740)

Ao início do tratamento, selecionamos 9 sintomas para monitorarmos ao longo das sessões, pontuando-os de acordo com a seguinte escala:

0= não tive esse sintoma nenhum dia  na ultima semana;

1= Leve/ raro;

2, 3 e 4 = moderado;

5, 6 e 7= severo/ contínuo (ou todos os dias na última semana).

 

É possível observar a evolução dos sintomas ao longo do tratamento na tabela abaixo:

Tabela 1: Sintomas percebidos  pelo paciente ao início, meio e ao final do tratamento.

Sintoma Início Meio Fim 15 dias após o fim
Pensamento acelerado 7 3 2 1
Corpo Tenso (ombros) 7 3 1 1
Trismos / tiques 7 3 1 1
Desconforto na região do estômago 7 6 2 1
Sensação de gases 7 6 2 1
Ansioso 6 4 2 1
Pensamento confuso 6 2 2 1
Dificil acordar descansado 6 4 1 1

 

Após 14 sessões, o paciente teve alta do tratamento, não apresentando mais nenhum dos sintomas que apresentava como queixa princiapl. Os benefícios continuaram evoluindo mesmo após termos encerrado o treinamento com neurofeedback.

O tempo médio de o tratamento é em torno de 30 sessões. Esse foi mais dos dos tantos casos surpreendentes de melhora com o neurofeedback.

Abaixo a opinião do paciente, 2 meses após o fim do tratamento:

“Após algumas semanas de tratamento com o neurofeedback, percebi uma melhora significativa em meus sintomas de ansiedade e stress social, bem como sintomas fisiológicos associados. Aprendi a melhor observar meu comportamento e reações diante de fatores geradores de ansiedade e aprender mecanismos de relaxamento e controle destes sintomas. Sem dúvida é um excelente tratamento”. (Paciente Anônimo)

 

Ativação do Lobo Frontal e seu Papel na Depressão, Ansiedade e Euforia

Durante todo o tempo em que tenho trabalhado com neurofeedback (desde 2007) e, recentemente, pesquisando e colaborando em ensaios clínicos usando Estimulação Transcraniana de Corrente Contínua (ETCC ou, do inglês TDCS – Transcranial Direct Current Stimulation) tenho ouvido e falado muito sobre “inversões” e “assimetrias” cerebral, assim como suas relações com sintomas de ansiedade, euforia e depressão.

Então resolvi escrever esse post sobre o conceito da assimetria do lobo frontal, com base nos padrões neurofisiológicos, do impacto desses achados na compreensão do comportamento e emoções humanas e como o treinador de neurofeedback usa esse conceito para o treinamento cerebral dos pacientes.

O lobo frontal tem dois hemisférios ou “partes” (direito e esquerdo) e a relação entre eles e a regulação emocional tem sido explorada por diversos autores. Davidson e Irwin, em 1999, descreveram o sistema motivacional do cérebro, sendo inicialmente proposto que o sistema de “aproximação” (approaching*) é responsável por gerar afetos positivos e comportamentos relacionados a aproximação de metas, e o sistema de evitação (withdrawal*) atua facilitando o comportamento de evitar estímulos aversivos e as reações às ameaças, estando ligado à produção de afetos negativos como nojo e medo. A região pré-frontal e a amigdala (parte subcortical, que não é possível de ser visualizada na imagem a seguir) são indicados como os componentes chaves desse circuito.

cerebro e hemisférios

O conceito principal é de que o hemisfério frontal esquerdo é mais ativado que o hemisfério direito e essa diferença de ativação está ligado ao adequado funcionamento das habilidades cerebrais, do ponto de vista cognitivo, emocional e da produção do comportamento (Para entender melhor sobre aspectos não emocionais dos hemisférios direito e esquerdo do cérebro, acesse o link para o post de uma colega em: https://julyneuro.wordpress.com/2013/07/18/as-assimetrias-cerebrais-parte-ii/. Esse post vai se focar principalmente nos aspectos motivacionais).

Sendo assim, quando há inversão nesse padrão de assimetria, sintomas de depressão e/ ou ansiedade e euforia podem ser observados. Quando o hemisfério esquerdo não está “dominante” (mais ativado), tem-se verificado que a dominância direita está associada à depressão. Do modo contrário, quando o hemisfério direito não está adequadamente balanceado, deixando o hemisfério esquerdo excessivamente dominante, observa-se a manifestação da euforia. Esses padrões de dominância podem ser observados através das predominância e do poder das ondas alfa e beta em regiões contra-laterais do cérebro (direita-esqueda), e estão relacionados ao traço eufórico/ depressivo, mesmo quando o sujeito não está manifestando esses estado. Ou seja, uma pessoa com predominância do hemisfério direito pode apresentar um padrão comportamental de evitação mesmo que ela não esteja deprimida naquele momento. Os níveis de cortisol (hormônio esteroide produzido em resposta a situação de estresse) também estão relacionados com as inversões, mais precisamente com predominância direita.

Mais recentemente alguns autores têm sugerido que as assimetrias frontais estão mais ligadas ao comportamento manifesto (aproximação e evitação) do que à valência (afeto positivo e negativo). Um exemplo é quando alguém, sob o efeito do sentimento negativo de raiva, inicia uma briga (comportamento de aproximação). Esse padrão tem sido relacionado ao excesso de ativação do hemisfério esquerdo (aproximação) e não direito.

Investigações de outras regiões cerebrais envolvidas na regulação da emoção e comportamento usando a técnica de EEG sugerem que a região posterior do cérebro está mais relacionada com a percepção da valência positiva e negativa, sendo que padrões de assimetria também são investigadas nessa região. Em outras palavras, a região parietal do cérebro (ver imagem) está associada a percepção emocional, sendo que a onda alfa parece ser importante tanto para a percepção de emoções positivas quanto negativas, tanto em adultos quanto em crianças.

Qual o papel do neurofeedback em relação as inversões?

O neurofeedback é uma técnica que acessa o padrão de ativação do cérebro através do EEG e permite comparar os padrões de ativação de cada região, analisando-se quais faixas de ondas estão dominantes em determinadas regiões. Diferentes treinos podem ser aplicados para a alteração do padrão invertido e reestabelecimento da assimetria adequada. O treino “típico” de inversões frontal reforça a relação entre as ondas beta e alfa através de estímulos auditivos e visuais. Assim, o cérebro é treinado a mudar a relação entre esses padrões de ondas, deixando o hemisfério esquerdo do lobo frontal levemente mais dominante. Já quando a inversão é observada no lobo parietal, a tendência é o reforço para aumento da produção de alfa no hemisfério direito.

Fontes consultadas:

Harmon-Jones, E., Gable, P. A., & Peterson, C. K. (2010). The role of asymmetric frontal cortical activity in emotion-related phenomena: A review and update.Biological psychology84(3), 451-462.

Davidson, R. J. (2002). Anxiety and affective style: role of prefrontal cortex and amygdala. Biological psychiatry51(1), 68-80.

* tradução livre.

Ansiedade e Biofeedback/ Neurofeedback

“E agora, será que escrevo sobre esse assunto? Vou escrever logo, se não alguém escreve primeiro! Mas e o compromisso que eu tinha? E se eu escrever e as pessoas não gostarem? Vão pensar que não sou um bom profissional? Mas eu sou um bom profissional não? Ai, e se eles perceberem que eu não domino bem o assunto? E se? E se…”

Ondas de pensamento incontroláveis e disfuncionais, como esse “diálogo interno” que inventei e escrevi acima, podem vir acompanhados de um desconforto físico que muitas vezes é difícil definir. Uma mistura de pontada no estômago com dores nos ombros, parece que o coração vai sair pela boca e algumas vezes a mãos começam a “derreter” de tão suadas. A euforia inicial se transforma em agonia e preocupação excessiva, e as vezes até uma tristeza e sensação de fracasso, antes mesmo de ter tentado… Só de pensar no assunto, tudo isso acontece… E é difícil parar de pensar…

A cena descrita acima nos remete a alguns dos componentes que acompanham a ansiedade: pensamentos involuntários e incontrolados, aceleração do batimento cardíacos, aumento da sudorese (não apenas nas mãos, mas também nos pés e face/ cabeça), mal estar generalizado, tensão. Além disso, pode-se apresentar a boca seca, tremores e medo excessivo.

lili-lilo-e-stiche-foto-300x205

Um quadro de ansiedade é comumente marcado por sintomas físicos, psíquicos (cognitivos e emocionais) e alterações fisiológicas. Esse é um mecanismo que se retroalimenta, em que as alterações fisiológicas desencadeiam reações cognitivos-emocionais (como pensamentos disfuncionais e acelerados e sentimentos de tristeza, desamparo e incerteza) e vice-versa.

As reações fisiológicas da ansiedade estão ligadas ao mecanismo de reação do nosso corpo: o sistema nervoso simpático. Ele é responsável pela resposta de luta ou fuga, e deveria ser mobilizado apenas nos momentos desafiadores, em que uma reação pontual e intensa fosse necessária. O ideal é que no dia a dia houvesse a predominância da ativação do sistema nervoso parassimpático, responsável pelos processos de manutenção corpórea, como digestão e relaxamento. Ou seja, o excesso de reatividade do sistema nervoso autônomo, trazendo o predomínio da ativação simpática, causa um desequilíbrio no ajuste fisiológico, desencadeando reações psíquicas e emocionais. Essas reações autônomas são comandadas pelo nosso cérebro e “padrões disfuncionais” de ativação cerebral estão relacionados com essa desregulação.

É importante lembrar que a resposta de reatividade é necessária e muitas vezes se mostrou fundamental em momentos difíceis, com desafios a serem superados. Porém, o desgaste físico e emocional causado pela manutenção do desequilíbrio é muito alto.

Sitema Nervoso Autonomo

Imagem: RENNER,Tanya. Psico A. Porto Alegre, McGrawHill, 2012; retirada do blog: http://neuropsicopedagogianasaladeaula.blogspot.com.br/2013/05/sistema-nervoso-autonomo.html

Padrões Cerebrais e Ansiedade

Alguns padrões de EEG (eletroencefalografia) em repouso estão ligados aos problemas emocionais, como os que encontramos em casos de ansiedade.

A inversão na assimetria da região frontal do cérebro tem sido ligada a sintomas de ansiedade e depressão. De modo geral, espera-se que o hemisfério esquerdo do cérebro seja um pouco mais acelerado ou mais ativado que o direito. Estudos tem sugerido que o predomínio de ativação do hemisfério direito (assimetria invertida) do córtex frontal está relacionado a sintomas de depressão e ansiedade.

Estudos com pessoas com estresse pós traumático sugerem que esse transtorno está relacionado com um “poder reduzido” das ondas do tipo alfa na parte posterior do cérebro, assim como com o aumento de “poder” das ondas beta nessa região.  Alfa é um padrão de onda ligado a um estado de “paz mental” e um alto “poder” de alfa já foi verificado em monges budistas. Beta é um padrão de onda ligado a processos cognitivos e beta muito rápido (high beta) também está relacionado com padrões de ansiedade.

Links para artigos sobre o efeito da meditação no cérebro:

http://epileptologie-bonn.de/cms/upload/homepage/axmacher/Felletal_2010_Med_Hypotheses.pdf

http://www.rickhanson.net/wp-content/files/papers/AdvancedMedEffects.pdf

Como o Biofeedback e Neurofeedback podem me ajudar?

Existem dois caminhos para redução dos sintomas de ansiedade através dessas técnicas: um é focar mais no sistema nervoso autônomo, usando técnicas de biofeedback periférico como o biofeedback cardiovascular, de resposta galvânica da pele e de temperatura.

Clique aqui para ver alguns posts sobre o biofeedback:

https://julyneuro.wordpress.com/2010/06/08/terapia-com-biofeedback-uma-tecnica-de-auto-regulacao-para-saude-e-bem-estar/?preview=true&preview_id=53&preview_nonce=a8db4e4384&post_format=standard

https://julyneuro.wordpress.com/2010/09/14/regulando-meu-humor-atraves-da-respiracao/?preview=true&preview_id=160&preview_nonce=93303965bb&post_format=standard

https://julyneuro.wordpress.com/2010/06/18/variabilidade-da-frequencia-cardiaca-e-biofeedback/?preview=true&preview_id=60&preview_nonce=0566af3c67&post_format=standard

Outra é trabalhar com o Neurofeedback, técnica na qual o sinal monitorado é o EEG (ativação cerebral). Através do registro desse sinal e exibição dele na tela do computador, é possível aprender a modular as ondas cerebrais, alterando aos poucos os padrões disfuncionais. O treinamento com neurofeedback requer regularidade e persistência. Algumas pessoas aprendem com mais facilidade, outras demoram um pouco mais.

De modo geral, na minha prática, eu associo as duas técnicas na mesma sessão, com o objetivo de diminuir o padrão de reatividade fisiológica, desencadeado pelo sistema nervoso autônomo, e obter melhores resultados com o neurofeedback.

Em caso de dúvidas, entre em contato: julyneurop@gmail.com